Não sei dizer ao certo quando o primeiro livro entrou em
minha vida, lembro-me que era um trabalho de escola e que o livro fora
emprestado por uma tia, que recomendara
muito cuidado pois se tratava de livro de coleção, aliás de capa dura, todo
azul e com o título em destaque “ A ilha
perdida”.
Foi então dada a largada para a mais encantadora das viagens que uma pessoa
pode realizar: a leitura. Na sequência essa mesma tia emprestou-me Robison Crusoé,
com as mesmas recomendações, é claro. Mas, já não se faziam necessárias,
descobri muito rápido como aquele objeto era mágico e valioso.
A leitura passou a ser meu passatempo predileto, no entanto a qualidade de
livros que estavam ao meu alcance era
duvidosa. Não sei ao certo como li uma coleção inteira de uns livrinhos “de
capa mole” que levantaram minhas suspeitas quanto à qualidade, mas não o suficiente
para impedi-las : Júlia, Camila, Pamela... romancezinhos xaropes.
O tempo que a tudo cura, trouxe experiências mais emocionantes e
significativas. As leituras que a professora pedia dos clássicos românticos,
não me desapontaram e alguns deles
ganharam reprise de vários trechos : A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo
com sua exaustiva descrição alimentava
minha imaginação, Carolina – a heroína – era exemplo de comportamento; A
escrava Isaura; Lucíola, de Alencar ,
Amor de Perdição; Inocência... ah, de verdade gostava de todas essas leituras,
percebia que não era muito comum.
Os gêneros começaram a se diversificar, infelizmente a poesia nunca foi o meu forte, mas as
crônicas se adaptaram ao meu novo estilo, precisava de algo que fizesse uma
ponte entre o atual e o imaginário e aquele espaço em que um gesto, um simples acontecimento,
uma frase, uma manchete de jornal, desencadeava
uma série de reflexões me
fascinaram.
Comprar livros não fazia parte do meu
universo, na verdade durante toda a adolescência o verbo comprar foi muito pouco conjugado, no
entanto emprestar era rotina!
Bibliotecas são templos. Deve ser por isso que o depoimento de Ruben Alves
comparando a leitura à um ritual
de antropofagia e misticismo me tocou tanto.
Além das bibliotecas os amigos eram os maiores fornecedores de leituras e como
“ a cavalo dado , no caso emprestado, não se olha os dentes”, aceitava quase todas as sugestões. Livros de
autoajuda, romances de Harold Hobins
traduzidos, Agatha Christi, Jorge Amado, I ching, Admirável Mundo Novo – e como
foi admirável, Revolução dos Bichos, 1984 – tão atual, Pablo Neruda. A
diversidade alimentou a curiosidade.
Na faculdade a presença dos grandes transcendeu inicialmente todas as outras
leituras: Drummond, Fernando Pessoa, Millor Fernandes, Murilo Mendes, Fernando
Sabino, Moacyr Scliar, Machado de Assis, Gilberto Dimenstein... Clarice
Lispector traduziu-nos em A Felicidade
Clandestina –“ não era uma criança com um livro nas mãos, era uma mulher com
seu amante nos braços”. Mas como eu disse anteriormente transcenderam
inicialmente, para depois num gesto de magnânima generosidade, que só aos grandes pertence, fizeram-me compreender que
algumas das experiências inicias, não muito elogiosas, é que prepararam o
caminho para as leitura futuras e fizeram de mim uma leitora apaixonada.
Rita Zini.

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