Ao ler e ouvir os depoimentos, me identifiquei com alguns e também fiz uma deliciosa viagem ao
passado... Gostei do final da fala da Marilena Chauí “...os escritores
passados se tornam presentes, os escritores presentes dialogam com o passado e
anunciam o futuro”, e concordo com ela, afinal cada página que viramos ao
ler um livro fazemos esse diálogo temporal, seja ele histórico ou futurista.
Newton Mesquita definiu bem: “...aquilo toca na sua essência e detona tantas
ideias e fantasias que se torna parte de sua vida...” e não há como não
concordar com sua fala! Assim como Nina Horta, eu também levo – ao menos um –
livro(s) na minha bagagem quando viajo. Antônio Cândido foi magnífico em sua
fala “"As produções literárias, de todos os tipos e todos os níveis,
satisfazem necessidades básicas do ser humano, sobretudo através dessa
incorporação, que enriquece a nossa percepção e a nossa visão do mundo...”.
A analogia de Rubem Alves, perfeita! Mas minha viagem ao passado ocorreu ao
ouvir os depoimentos de Gabriel, o Pensador e Gilberto Gil, que mencionam a avó
como pessoa querida e influente na vida deles.
Tenho excelentes recordações
de minha mãe, que não influenciou apenas a mim, mas também aos meus irmãos.
Minha mãe sempre foi boa leitora e apaixonada por livros – até hoje! Ela tem
uma biblioteca particular em sua casa de dar inveja. Mas enfim, voltando ao passado,
lembro-me que eu e meus dois irmãos, ao retornar da escola no final da tarde,
queríamos andar de bicicleta na Lagoa do Taquaral, um famoso parque em Campinas
próximo de nossa casa. E sempre fomos, ela nunca nos proibiu - e ia conosco,
pedalar... Quando anoitecia, retornávamos para a casa, tomávamos banho,
jantávamos e sentávamos no sofá, onde minha mãe perguntava como fora o dia na
escola. Após breve conversa, ela pegava um livro e começava a ler. Era proibido
ligar a TV neste momento. Se quiséssemos assisti-la, tínhamos que ir ao quarto
dela, onde meu pai via o jornal. Como jornal não é um programa atrativo para
crianças, fazíamos companhia. E ao observá-la, passamos a ler também. Quando
minha mãe percebeu, começou a adquirir livros adequados para nós. Pronto, não
paramos mais. Líamos um livro por semana, depois fazíamos rodízio: o livro que
eu li, passava para meu irmão mais velho, que passava o seu para o meu irmão
mais novo e eu lia o que este lera. Na semana seguinte, novo rodízio. Quando os
três já haviam lido os diferentes livros, ela adquiria mais três e aí começava
tudo de novo. Até hoje, nas reuniões familiares, trocamos percepções acerca dos
livros que lemos. Enfim, comecei meu gosto pela leitura pelas aventuras da
Turma do Pica-Pau Amarelo, ainda criança. Depois vieram os livros da série
Vagalume, já iniciando a adolescência. Ganhei um concurso de redação: duas
entradas para o Playcenter! Passei pela fase Agatha Christie e Sir Arthur Conan
Doyle, indicação de minha tia, que mora na Inglaterra. Começou aí meu interesse
também pela literatura estrangeira.
Na faculdade: me encantei com
as poesias de John Keats, Lord Byron e Mary Shelley (senti-me lisonjeada ao
descobrir que meu sobrenome é uma variação do sobrenome do secretário de Lord
Byron, John Polidori, que não foi tão famoso e conhecido quanto Lord Byron, mas
também escreveu suas histórias) ri com as comédias de William Congreve e John
Vanbrugh, o romantismo de Oscar Wilde, Walter Pater, George Elliot. A
“Era Dickens” fascinava-me com seu estilo bem humorado em retratar a vida em
Londres, enfim, são tantos escritores fabulosos que sinto-me mal em não
relatá-los aqui. Em relação a literatura nacional: adoro “os olhos de ressaca
da Capitu”, a emocionante e triste história da cadela Baleia, os “invejáveis”
cabelos mais negros que a asa da graúna e seus lábios de mel, e o que dizer do
herói de nossa gente, que nasceu no mato virgem? Os detalhes descritos no O
Cortiço faz com que o leitor realmente visualize a pobreza, podridão e
promiscuidade que os personagens viviam, fantástico!
Mas, são dois os livros que
sempre releio: Dom Quixote de La Mancha e Os Contos da Cantuária – não sei
exatamente o motivo, creio que o contexto histórico em ambas me fascina.
Entretanto, gostaria de
esclarecer que essas obras literárias só aprendi a gostar de lê-las na
faculdade, quando comecei a estudar profundamente e passei a compreender todo o
contexto histórico e cultural no qual a obra foi escrita. Na escola considerava
essas leituras chatas e "paradas", com um vocabulário
incompreensível, e que eu era "obrigada" a ler porque a professora
queria. Agora imaginem uma adolescente, que era acostumada a ler Agatha
Christie, por exemplo, numa leitura que era envolvente, que prendia a atenção
do leitor, ter que ler (contra sua vontade) Graciliano Ramos, uma leitura que
exige atenção, bom conhecimento lexical e ainda contextualizar o período
histórico para compreendê-la, numa época onde a contextualização não era
utilizada pelos professores...
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